sexta-feira, 11 de julho de 2014

Descrente


Foi-se a democracia sentimental. Vazou, findou, estrangulou-me. Ernesto tem compartilhado dizeres ofensivos, maltratados sobre minha postura pragmática e alusiva sobre os versos ouvidos na calçada. É mister que meu absurdo se decompõe na [des]história de mim. Assim como é arrogante pensar o quão vazia permaneço quando a aresta se preenche, momentaneamente, com sua passagem.

- Volte aqui! Repete Ernesto.
E por mais que eu me esforce para olhar de canto, desdenhando seu desejo. Eu sorrio, vagabunda, ao seu olhar insistente.


Parti, não por merecimento, mas como medida desesperada antes que o berro ultrapassasse a esquina. Logo vi, ao dobrá-la, o quão estava morta, sem odor, sem verso, sem dentes. A minha carne repara na sua insistência mal vista, encara-te por intermédio de palavras desencontradas. Surpreende-te, sutilmente, ao reler seus versos tortos, mortificados.


Não creia, Ernesto. Porque mesmo que amá-lo de fato me salvaste, não era meu coração sua ambição. Seria minha escravidão, meu ímpeto, meu sangue. E ainda assim, você me diria, sorridente:


- Não é o bastante.

Por Ana Paula Morais.

 Imagem do filme "Os miseráveis" (2012)

Um comentário:

  1. Oxé...!!!! Chega eu me espantei....rsrsrsrs...Pois fazia tempo que vc não publicava!
    Eu agradeço o retorno; bom retorno!! rsrsrss

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Um beijo pelos dedos que aqui escrevem, um Queijo pelo suspiro aqui postado.