quinta-feira, 10 de julho de 2014

Eu preciso arrotar

Cansei do copo furado,
de boca pra baixo.
Cansei da voz na bicicleta vendendo tapioca.
Cansei da reclamação, da conta zerada, da cerveja quente, da calça folgada.
Cansei de parir histórias, de reclamar dos jogos, do banho quente,
da virilidade.
Cansei de pedir atentamente, com voz mansa, o atendimento desbocado, das flores, das igrejas, das irmãs.
Cansei do tédio, do frio, da tv a cabo, da panela engordurada, da ligação com o super crédito.
Cansei dos olhares olhando, refletindo a palavra repetida nessa frase.
Cansei da humanidade, do corpo, do sexo, do gozo.
Cansei da minha assexualidade, do retorno ao bar da esquina, da cachaça vomitada.
Cansei dos filmes, do relógio, dos óculos de sol e da maquiagem borrada.
Cansei dos livros, das letras, dos dedilhados, do violão e da voz do cantor.
Cansei das vogais, do céu, da chuva, da lua nova, da paz iludida, das fotos mentirosas sobre o dinheiro que não se tem.
Cansei de ler erotismo, de publicar peitos e bocas, de desejar mulheres, de menosprezar os homens.
Cansei dos namoros na esquina, dos jovens arrotando seus lanches e jurando amores tranquilos.
Cansei da minha falsidade e da minha honestidade serem tomadas de mim, como órgão sexual, estuprado.

Cansei da sua mão em mim, da sua lambida e do seu cheiro.
Cansei da cidade, das ruas com quadrados verde e amarelo, do cheiro das tintas, das capas dos celulares.
Cansei do som das manhãs, do ninho dos pássaros, das cobras e das amigas.
Cansei do preço das lojas, dos sapatos caros, da carteira vazia.
Cansei dos hospitais, dos médicos, da delicadeza do açougueiro.
Cansei dessa escrita,
desse texto
e da minha cara bonita.
Cansei de dar voz ao mundo, dessa inspiração patética em dias infelizes.
Cansei de você nesse momento, por ter lido
e cuspido esse texto
mal escrito.

Ana Paula Morais








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