Olá, queridos leitores. Segue o vídeo do poema "Hilda", de Cida Pedrosa, recitado por mim no Recital de Poesias da Uneal em 13/03/12. O recital contou com alunos da Uneal e Ufal sob a organização do professor e poeta Luciano José.
"Hilda gosta de fazer sexo de manhã,
antes de encarar a ordem do dia
e o ônibus rio doce-piedade.
Entre um ofício e outro
faz a pesquisa na internet
e lê aquele e-mailzinho sacana
sobre os efeitos milagrosos dos florais.
(a dor não precisa mais dos jornais
e o filme francês é lento para este tempo de baladas,
o ascensorista tava com cara de pagode e pouco sexo
e secretária do diretor se pôs de luvas para o dia)
Por hoje, limitei-me a pensar Florbela Espanca, essa poetisa mágica e mulher intensa da alma. A vocês, queridos leitores, poesias dessa mística e admirável ser retiradas do livro Poemas de Florbela Espanca, edição de Maria Lúcia Dal Farra. São Paulo:1996. (presente de um amigo estimável Jalon Nunes)
Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.
Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!
Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas
E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!
Aborreço-te muito. Em ti há qualquer cousa
De frio e de gelado, de pérfido e cruel,
Como um orvalho frio no tampo duma lousa,
Como em doirada taça algum amargo fel.
Odeio-te também. O teu olhar ideal
O teu perfil suave, a tua boca linda,
São belas expressões de todo o humano mal
Que inunda o mar e o céu e toda a terra infinda.
Desprezo-te também. Quando te ris e falas,
Eu fico-me a pensar no mal que tu calas
Dizendo que me queres em íntimo fervor!
Odeio-te e desprezo-te. Aqui toda a minh’alma
Confessa-to a rir, muito serena e calma!
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Ah, como eu te adoro, como eu te quero, amor!…
Quero-te ao pé de mim na hora de morrer.
Quero, ao partir, levar-te, todo suavidade,
Ó doce olhar de sonho, ó vida dum viver
Amortalhado sempre à luz duma saudade!
Quero-te junto a mim quando o meu rosto branco
Se ungir da palidez sinistra do não ser,
E quero ainda, amor, no meu supremo arranco
Sentir junto ao meu seio teu coração bater!
Que seja a tua mão tão branda como a neve
Que feche o meu olhar numa carícia leve
Num perpassar de pétala de lis…
Que seja a tua boca rubra como o sangue
Que feche a minha boca, a minha boca exangue!…
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Ah, venha a morte já que eu morrerei feliz!…
Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme.
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.