"E não maltrate muito a arruda, se lhe nçao cheira a rosas..."

quinta-feira, 21 de junho de 2012



"O amor não prende, não aperta, não sufoca. Porque quando vira nó, já deixou de ser laço."

Quintana

 

 




terça-feira, 29 de maio de 2012

A velha roupa morna

Estava terminando o último gole do jantar, quando senti o sabor salgado chegando à boca. Ainda bem que o café ainda estava quente pra não quebrar o açúcar com o sal. É estranho estar sozinha à mesa. Estou acostumada com palavras saltando aos ouvidos, conversas batidas do cotidiano, risos e falações dos vizinhos. Mas hoje preferi estar sozinha, porém acompanhada de mim, que já estava falando o bastante. Lembrei das épocas da faculdade, dos risos incontáveis com os amigos, das aulas perdidas, hoje lamentadas, dos choros contidos pelo corredor... Imaginei como se cada ato tivesse mudado, nem que fosse um segundo atrasado, poderia ter ao menos me privado de ver as coisas que eu vi, ou de sentir aquelas que presenciei.

 [...]


Mas acabou o café pra continuar a história, a noite fria me aperta o peito, sinto falta de tudo que vivi e sonhei, das chatices que criei e matei. Hoje, queria ao menos largar um sorrisinho de canto, tímido, mas os dentes cerrados me calam a boca. Mas o choro se espalha e molha a roupa.
 Por Ana Paula Morais



Montagem

Hoje eu queria ter um sorriso de um palhaço,
fazer chorar, sorrir em contrários,
pregar uma peça, falar bem da vida,
ter amigos, usar roupas coloridas,
pra disfarçar o peito, a dor nas costas,
o frio da alma.

Ser picareta, fazer pirueta, cair,
embolar, fazer rir até chorar.

Queria bestagem de criança,
correr, pintar o sete,
colorir o asfalto, pra só assim,
apagar as lágrimas que eu senti,
apagar o ser que habita em mim.

Por Ana Paula Morais.


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Ser

Ao passo que se angustiava, sorria sem parar. Era a vergonha tomando conta do rosto e travando os dedos. "Como é que pode algo assim tão íntimo revelado sem culpa e sem dor?". Acabar com essa história de gêneros, o gênero aqui é só um: PESSOA! Gente mesmo, sabe? De carne e osso, de amor e de ódio, de hipocrisia e revolta. O que se quer mais da vida? Viver!


Por Ana Paula Morais

sábado, 5 de maio de 2012

A estrada

Dos verdes campos que me perfumam,
Ora secos, ora úmidos,
Veredam por mim com suas angústias,
Trazendo a mim pequena infortúnia.

No que me acompanho, esmoeço,
Pois no seu tamanho, as vistas enfraquecem,
E adormeço sonhando teus fortes ventos.

E que longas estradas passo a namorar,
Enquanto elas sorrindo, me acalmam a viajar.
No caminho ao meio suo a tua jornada,
fechando os olhos aqui, acolá...

[Não temas, menina, estás a chegar,
seguro tua mão e respondo o que assuntar,
sou longa, sou curta, basta rabiscar.

Agora, porém, tu vais a desembarque,
Te digo, também, não te esqueças de cá,
depois os segredos que guardo no tempo,
aos poucos, comigo, vão se revelar...]

De olhos abertos,
Agora no chão,
Mal posso sentir,
Parei na contramão.

Por: Ana Paula Morais


quarta-feira, 11 de abril de 2012

"A verdadeira natureza do obsceno é a vontade de converter."
 Hilda Hilst


 

quarta-feira, 14 de março de 2012

"Hilda", de Cida Pedrosa.

Olá, queridos leitores. Segue o vídeo do poema "Hilda", de Cida Pedrosa, recitado por mim no Recital de Poesias da Uneal em 13/03/12. O recital contou com alunos da Uneal e Ufal sob a organização do professor e poeta Luciano José. 

"Hilda gosta de fazer sexo de manhã,
antes de encarar a ordem do dia
e o ônibus rio doce-piedade.

Entre um ofício e outro
faz a pesquisa na internet
e lê aquele e-mailzinho sacana
sobre os efeitos milagrosos dos florais.

(a dor não precisa mais dos jornais
e o filme francês é lento para este tempo de baladas,
o ascensorista tava com cara de pagode e pouco sexo
e  secretária do diretor se pôs de luvas para o dia)

Hilda gosta de fazer sexo de manhã
e de dar bom dia ao chefe
com seu homem liquefeito na calcinha".

Cida Pedrosa.


domingo, 11 de março de 2012

Poetas

Por hoje, limitei-me a pensar Florbela Espanca, essa poetisa mágica e mulher intensa da alma. A vocês, queridos leitores, poesias dessa mística e admirável ser retiradas do livro Poemas de Florbela Espanca, edição de Maria Lúcia Dal Farra. São Paulo:1996. (presente de um amigo estimável Jalon Nunes)


Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.


Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!


Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas


E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!

Florbela Espanca

Confissão

Aborreço-te muito. Em ti há qualquer cousa
De frio e de gelado, de pérfido e cruel,
Como um orvalho frio no tampo duma lousa,
Como em doirada taça algum amargo fel.

Odeio-te também. O teu olhar ideal
O teu perfil suave, a tua boca linda,
São belas expressões de todo o humano mal
Que inunda o mar e o céu e toda a terra infinda.

Desprezo-te também. Quando te ris e falas,
Eu fico-me a pensar no mal que tu calas
Dizendo que me queres em íntimo fervor!

Odeio-te e desprezo-te. Aqui toda a minh’alma
Confessa-to a rir, muito serena e calma!
……………………………………………………..
Ah, como eu te adoro, como eu te quero, amor!…

Florbela Espanca 

 

Desejo

Quero-te ao pé de mim na hora de morrer.
Quero, ao partir, levar-te, todo suavidade,
Ó doce olhar de sonho, ó vida dum viver
Amortalhado sempre à luz duma saudade!

Quero-te junto a mim quando o meu rosto branco
Se ungir da palidez sinistra do não ser,
E quero ainda, amor, no meu supremo arranco
Sentir junto ao meu seio teu coração bater!

Que seja a tua mão tão branda como a neve
Que feche o meu olhar numa carícia leve
Num perpassar de pétala de lis…

Que seja a tua boca rubra como o sangue
Que feche a minha boca, a minha boca exangue!…
………………………………………….
Ah, venha a morte já que eu morrerei feliz!…

Florbela Espanca