"E não maltrate muito a arruda, se lhe nçao cheira a rosas..."
quarta-feira, 13 de março de 2013
segunda-feira, 11 de março de 2013
Infortúnio
Hipnotizada, ando.
Como a retina cruzando teus passos,
arrastando a poeira do velho vaso.
E se acaso for,
Não devolva os beijos, outrora dados,
O mar limpará os rabiscos rasos.
Não quebre os dedos, agora cruzados,
soando um futuro já abortado.
Livra-me padre, deste agonia,
fazendo a cruz por cima dos lábios,
molhados e vivos,
cheirando a pecado.
Receba esta carta e leia de bom grado,
que de tristeza não morro,
se teu amor, a mim, foi derramado.
Ana Paula Morais
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Prece
Esperando piedosa a cor voltar às maças do rosto. Tremi só de pensar em não resistir ao novo milênio. Os fogos queimaram todo o céu com cores variadas e sons típicos. Crianças correndo e caindo enquanto recebem sorrisos e gritos dos pais. Uma tela enorme com recortes de vida de cada um, ali, se estendendo à visão do mundo. Nobres pais abraçando os filhos e outros calados segurando um terço. Famílias sentadas à porta brindando amores, paz e segredos. Casais aos beijos rodopiando no meio da rua, outros paralisados soltando as mãos. Migalhas estendidas às pessoas nas calçadas, outros de tão deslumbrados, pedindo a Deus sua salvação. Não há com o que se preocupar. Gritamos "Again" no entrelaçar dos segundos. Os animais parecem extintos. Encolhidos no fundo do quintal ou arregalados, espelhando o medo. Mas o principal estava por desvendar-se: Sê. No encontro dos lençóis não pedi mais do que isto: o desencanto do passado, o brinde ao amor largo.
Por Ana Paula Morais
sábado, 29 de dezembro de 2012
Para chuva, com amor...
Não lembro do seu choro. Isso porque há tempos meu solo traz alguns pedregulhos com barro batido. Resquícios seus. Não quero culpá-la pela minha dureza, nem pelas flores que eu não sirvo, mas quero alertá-la para as maldades do mundo que insistem em levá-la ao céu. Quando fico em alerta, meu corpo cede, abre rachaduras finas que vão se alongando com o tempo. Corre o risco de prender o pé em meu peito e derrubar sobre mim seu peso. Isso doi bastante. Não tê-la é um sacrifício desgastante. Tudo resseca. Morre. Ameaça. E quando penso que minha reserva de água está por secar, o corpo, num desafio de sobrevivência, espreme gotas das raízes, fazendo-me sufocar. Não sei o motivo do castigo. Passei um tempo te provocando, evocando seu barulho, em silêncio. E você correspondia. Você me acompanhava. Há quem julgue-me como enterrada ao passado, uma carcaça fétida, rumo ao desengano. Mas isso não é verdade. Você anuncia no altar dos sonhos sua chegada. E eu, sorrindo, abro os olhos. Enganada. Só te peço, querida, não mastigue meu suor com tanta fome. Não te peço apenas uma lágrima. Quero banhar o rosto e soluçar contigo. Quero lavar a alma e recomeçar.
Por Ana Paula Morais
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Eu gostaria
Eu
bem gostaria de desentender a solidão, partindo do que há de mais
complexo em ser humano. Isso porque o que afirmamos diariamente com bons
modos, respeito, educação, cai por terra na falta de ouvidos, olhos ou
faces remendadas. Essa tal solidão fixada na mente, não desaparece, ora
pois, no meio desses ouvidos, olhos ou faces remendadas.
Eu gostaria que essa farsa de sentimentalismo e companheirismo contínuo desabrochasse sem utilizar como predisposição o outro.
Eu gostaria de desentender essa mera importância do outro em nós. Essa
necessidade de preenchimento, espontaneidade que nos colocam para
expormos nossas babaquices e crendices.
Eu gostaria de desentender o constante sofrimento alheio, o vazio que
carregam consigo por seu anseio de amor, de amar, de se amar.
Eu gostaria de idealizar o amor, trazendo sua forma não aceita, bruta,
concreta. Isso me traria angústias menores, entregas às cegas e a morte
do sensato.
Eu gostaria de desentender, mais ainda, aquilo que
teimo estar. Porque só assim, não haveria culpa, mal estar ou
arrependimentos. Haveria espaço para o real, para nosso núcleo e voz
insconsciente. Dizem que é fundamental nosso auto-conhecimento, mas
acredito que é mais doloroso do que a arquitetura da nossa felicidade.
Eu gostaria, pois, de desentender tudo que listei, mas acontece que fui
treinada desde a infância a pensar nos outros antes de mim.
Ana Paula Morais
domingo, 9 de dezembro de 2012
O aborto do amor
Certa ocasião merecia desprezo. Mas foi cumprimentada pelo respeito
ao passado. Com dúvidas e reticências, a primeira palavra foi proferida.
- O que trazes aqui? – pergunta, trêmula, Alice.
- Ainda não sei, Alice. – Responde ao mesmo tom, Otávio.
Alice baixa o olhar. Espera por alguma reação, já que durante anos o silêncio respondeu por si só suas tragédias.
- Como pode vir a mim, após tanto tempo, ainda sem certezas? – Indaga, Alice.
- Eu tentei... – Otávio se perde em suas próprias conclusões.
Alice está calada. Não consegue admitir que seu corpo
inteiro demonstra desejo. Ela repete a negação em mente, enquanto Otavio
a olha novamente.
- Não tive o que fazer, Alice. Simplesmente as coisas tomaram rumos diferentes...
Alice continua calada. As palavras parecem atropelar os
pensamentos e ela teme por falar o inconsciente mais uma vez.
- Sinto sua falta... Mas não posso... – Diz Otavio, reticente.
- Suas palavras nunca me fizeram falta, Oto. Não é agora que irão fazer.
[Não aceito ele me perturbar assim. Não depois de tudo que vivi, de tudo que senti. Vou embora]
- Era só isso? – Pergunta Alice um tanto ácida.
- Não, Alice... Não se ofenda, por favor. Só quero ter a certeza de que nada irá se comparar ao que vivemos. Nada.
[O que ele veio fazer aqui? Arrancar-me a realidade e plantar sonhos inalcançáveis? Não. Isso não]
Alice tira os cotovelos do joelho e se levanta. Não há o
que se pensar. As folhas mudam. Os ventos mudam. O passado também muda.
Sinto um cheiro de presente e reconforto. Oto não é mais o mesmo. Tem
uma aparência cansada e infeliz. Diferente de anos atrás, da alegria
estampada na pele.
- Do que adianta essa certeza?
Otávio não me ama. Pergunto-me se algum dia me amou. Se
todos os sonhos se diziam reais. Das promessas frágeis, findáveis,
ingênuas. Certos acontecimentos nos remetem ao desespero. Certas
alegrias inflamam a tristeza escondida. Certos amores cobrem a ferida,
mas não curam a dor. Oto está perdido consigo mesmo. Não consegue
admitir os erros a mim tramados. A vida não aceita retalhos. Alice está
abatida, visivelmente transtornada pelo amor abortado. Não consegue
sequer disparar murros em Oto. Os murros seriam beijos. E os beijos, o
recomeço.
Por: Ana Paula Morais
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Cinquenta tons de cinza e nada além disso
É certo que tive preconceito com essa série dos Cinquenta Tons de Cinza. Isso porque vi um trecho em um site da Revista Marie Claire, e achei muito batido, objetivo demais, além de infantil. Na hora, neguei qualquer vínculo com o livro. Mas, como ganhei de presente, tive que fazer as honras lendo o livro. Como diz, quem me presenteou: "Leia e critique com mais propriedade". Pois bem, aqui relatarei minhas constatações à primeira impressão do livro "Cinquenta Tons de Cinza"
Pra quem ainda não conhece, eis os detalhes:
Cinquenta Tons de Cinza (pt-Brasil) ou As Cinquenta Sombras de Grey (pt-Portugal) ou Fifty Shades of Grey (en) é um romance erótico bestseller da autora britânica Erika Leonard James publicado em 2011.
Os segundo e terceiro volumes são intitulado Cinquenta Tons Mais Escuros e Cinquenta Tons de Liberdade,
respectivamente. Cinquenta Tons de Cinza está entre os mais vendido de
uma trilogia que soma mais de 40 milhões de cópias em 37 países, ultrapassando o Harry Potter e o Código Da Vinci no Reino Unido.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cinquenta_Tons_de_Cinza
Bem, a história é de uma jovem de 21 anos, chamada Anastasia Steele, que está se formando em Literatura e que, após entrevistar Christian Grey , para um jornal da faculdade, se apaixona por ele. Christian então, mostra-lhe um mundo envolvido em sexo e submissão, em que Anastasia seria sua escrava sexual.
Nas primeiras páginas do livro, percebemos a acessibilidade da escrita para com os leitores. São termos ligeiramente corriqueiros, ratificando uma tradução pobre, mas bem objetiva. A história começa, e oscila entre algo muito ruim e algo tragável. Há momentos de risos? Sim, há. Porém, são esmagados pelos parágrafos alienados e personagens surreais dentro do livro. A personagem Anastasia mais parece uma jovem fora do mundo real e recheada de sonhos infantis. Nunca namorou, nunca se apaixonou e se apaixona por um homem rico e lindo. Nada diferente do que vemos nas novelas e estorinhas da TV. Além disso, é virgem, não tem celular, mas tem um fusca. Absurdamente uma personagem fora do contexto, para onde se passa a trama: Seatle. Christian Grey é um milionário, jovem, misterioso e atraente.
A personagem se descobre sexualmente com Christian. Ela aceita se submeter a práticas sexuais masoquistas, e, induzida por Christian, descobrir seu corpo e prazeres. Não irei fazer uma crítica aqui ao machismo contido no livro, visto que não foi essa a proposta do livro, penso, eu. As atitudes de Anastasia são tão ingênuas que acaba deixando a história morna, por vezes, patética, diante dos nossos pensamentos enquanto realizamos a leitura.
Mas, e o título do livro, a que se deve?
Bem... Essa é uma ótima pergunta. Mais uma coisa descoberta no livro sem qualquer ligação lógica com a história.
A leitura do livro é fácil. A história rende uns risos, mas não passa disso. Penso que toda a fama e venda exorbitante que o livro teve, deve-se a pouca literatura erótica escrita. Muitos são os paradigmas ainda a ser quebrados. A hipocrisia que guardamos frente a um mundo opressor é lançada ao vento quando nos deparamos com leituras como essa. Pra quem quer ajudar a se conhecer sexualmente, retornar à adolescência de uma maneira extremamente ingênua e passar o tempo, leia "Cinquenta Tons de Cinza". Mas para quem quer ir além da objetividade, tomar trechos como leituras de vida ou sentimentos e para quem preza um bom livro, espere ganhar o livro. Por via das dúvidas, não sairá do seu bolso, caso não goste.
Sei que não posso julgar fielmente uma trilogia baseada em um livro. Mas creio que nada de mais proveitoso estará escrito nos outros. Posso estar errada? Sim, claro. Então aguardo os dois seguintes.
sábado, 10 de novembro de 2012
Por ti, canto!
Quero-te como um pranto quente me queimando viva,
Percorrendo leve e beijando a face
Banhando inteira, minha boca livre.
Espero-te como a paz aguda a pertubar a terra,
Branqueando sonhos, arqueando vida,
Preenchendo a alma, curando a ferida.
Relembro os beijos quentes na noite morna,
Enquanto estás livre do meu alcance,
Retorno breve, desta noite, é a prece.
Mas mesmo longe, sinto seu odor,
Na escuridão das pálpebras frias,
Rosnando alto: “Alegria, Alegria”.
Por: Ana Paula Morais
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Segue
Cinza cor dos meus olhos
tempo de chuva me encontrou
trouxe prisão e solidão
à mente afogada no passado.
Levou o presente tão latente,
trouxe desejo e frio ao peito,
que já tinha os levado ao próprio enterro.
Afoguei o juízo na nuvem pairada
rezando insana, por ti meu amor
apoiada em mim, sem luz, nem dor.
Devolve a terra para em ti soterrar,
levar teus sonhos que a mim pertuba,
livrar-me de vez, do teu som, resoluta.
Por: Ana Paula Morais
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Proteção Divina
Enclausurada, partiu a alma para não incomodar,
fez pirraça, dançou de graça, não quis voltar.
Levou a razão, deixando a vida e coração,
em prantos miúdos, surgiu no mundo
como quem é filho da criação.
Por que a tormenta, em tal amada ilusão?
Se passo contente, feliz e carente,
cada sentida ingratidão!
Leve-me em suspiros, mas deixe meu corpo e pés no chão,
tão meio sorriso, não esta pronto para essa paixão.
Eu sei da vida e dos contos sanados em reflexão,
mas meu coração menina, confuso vivia
na palma da tua mão.
Surjo e esmoreço a cada palavra tua,
menina mulher, com o ventre em chamas,
só clama ternura.
Partirei inflando, na certeza de teu ser,
abrir meus caminhos para me proteger.
Abençoe minha vida, pés e mãos,
que mais longe encontrarei
o caminho do teu coração.
Por: Ana Paula Morais
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