"E não maltrate muito a arruda, se lhe nçao cheira a rosas..."

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Um balde


Há quem precise de palavras que arrematem uma vida ou uma esperança.
Como também há quem dispense beijos rodados na esquina com juras quebradas de tesão.
Outros dirão "Essencialmente, permaneço em mim", vozes, responderão "Ali, aqui...".
Há algo que não é descrito, sentido, visto ou falado, o desconhecido. Houve mundos felizes com pessoas agraciadas pelo amor, perdão e compaixão: um quadro rasgado.
Ouve-se "Sejam felizes", "Corram" "Libertem-se" "Viva" em frente a crianças brigando por um brinquedo quebrado.
Nega-se amor, perdão, aperto de mão, carinho, audição. Choramos música, vídeos, filmes de nossas vidas em nossos sonhos.

Derrame agora esse balde em mim. Cubra-me com teus beijos. Agarre-me no último suspiro. Cante para mim em meu ouvido. Carregue-me nos braços rua afora. Molhe meu corpo com a chuva. Grite o que negas a cada instante. Liberte seu lado imperativo.
Depois vague, vague em meus sonhos.
E acorde-me.

Por: Ana Paula Morais

Música: Once
Artistas: Glen Hansard e Marketa Irglova

quarta-feira, 13 de março de 2013

Ao copo

Honestamente, há álcool em mim.
Álcool pra sorrir tudo que escorre entre os dentes, toda agonia que me condena todos os dias, incessantemente.
Fechando os olhos a sentir o que me consta e me carrega horas a fio.
No silêncio do soluço regado a copos e choros mortos.
Honestamente, há álcool em mim.
Álcool para gritar sua vida de merda regada a pão e vinho.
Álcool para arranhar sua cara mordida pela vadia da esquina.
Álcool para alcançar sua estupidez nojenta dos amores ternos que coleciona. Insano.
Álcool para regar seus beijos carnudos das épocas bobocas nuns tempos de chuva e música.

[Homem inescrupuloso, ardiloso, longe da felicidade apropriada que pus à mesa, regada a libido, plenitude e correntes.]

Honestamente, há álcool em mim.
Álcool regando pulmão, rim, coração, útero e sua imbecil imaginação.
Há álcool em mim, sugando sua covardia quando larguei minhas pernas em bandeja a teus serviços, amor e vícios.
Álcool ungido à alegria, plenitude, feliz idade, à nossa, a luzir...

Há álcool em mim.
E dos tolos mais empobrecidos, cascudos, repulsivos e degenerados,
és o que me põe no copo, os desejos mais densos, adormecidos e vivos,
sonhados em ser:

Feliz.
 Ana Paula Morais
 
 

segunda-feira, 11 de março de 2013

Infortúnio

Hipnotizada, ando.
Como a retina cruzando teus passos,
arrastando a poeira do velho vaso.

E se acaso for, 
Não devolva os beijos, outrora dados,
O mar limpará os rabiscos rasos.

Não quebre os dedos, agora cruzados,
soando um futuro já abortado.

Livra-me padre, deste agonia,
fazendo a cruz por cima dos lábios,
molhados e vivos,
cheirando a pecado.

 Receba esta carta e leia de bom grado,
que de tristeza não morro,
se teu amor, a mim, foi derramado.

Ana Paula Morais


terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Prece

Esperando piedosa a cor voltar às maças do rosto. Tremi só de pensar em não resistir ao novo milênio. Os fogos queimaram todo o céu com cores variadas e sons típicos. Crianças correndo e caindo enquanto recebem sorrisos e gritos dos pais. Uma tela enorme com recortes de vida de cada um, ali, se estendendo à visão do mundo. Nobres pais abraçando os filhos e outros calados segurando um terço. Famílias sentadas à porta brindando amores, paz e segredos. Casais aos beijos rodopiando no meio da rua, outros paralisados soltando as mãos. Migalhas estendidas às pessoas nas calçadas, outros de tão deslumbrados, pedindo a Deus sua salvação. Não há com o que se preocupar. Gritamos "Again" no entrelaçar dos segundos. Os animais parecem extintos. Encolhidos no fundo do quintal ou arregalados, espelhando o medo. Mas o principal estava por desvendar-se: Sê. No encontro dos lençóis não pedi mais do que isto: o desencanto do passado, o brinde ao amor largo.

Por Ana Paula Morais

sábado, 29 de dezembro de 2012

Para chuva, com amor...

Não lembro do seu choro. Isso porque há tempos meu solo traz alguns pedregulhos com barro batido. Resquícios seus. Não quero culpá-la pela minha dureza, nem pelas flores que eu não sirvo, mas quero alertá-la para as maldades do mundo que insistem em levá-la ao céu. Quando fico em alerta, meu corpo cede, abre rachaduras finas que vão se alongando com o tempo. Corre o risco de prender o pé em meu peito e derrubar sobre mim seu peso. Isso doi bastante. Não tê-la é um sacrifício desgastante. Tudo resseca. Morre. Ameaça. E quando penso que minha reserva de água está por secar, o corpo, num desafio de sobrevivência, espreme gotas das raízes, fazendo-me sufocar. Não sei o motivo do castigo. Passei um tempo te provocando, evocando seu barulho, em silêncio. E você correspondia. Você me acompanhava. Há quem julgue-me como enterrada ao passado, uma carcaça fétida, rumo ao desengano. Mas isso não é verdade. Você anuncia no altar dos sonhos sua chegada. E eu, sorrindo, abro os olhos. Enganada. Só te peço, querida, não mastigue meu suor com tanta fome. Não te peço apenas uma lágrima. Quero banhar o rosto e soluçar contigo. Quero lavar a alma e recomeçar.

Por Ana Paula Morais


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Eu gostaria

Eu bem gostaria de desentender a solidão, partindo do que há de mais complexo em ser humano. Isso porque o que afirmamos diariamente com bons modos, respeito, educação, cai por terra na falta de ouvidos, olhos ou faces remendadas. Essa tal solidão fixada na mente, não desaparece, ora pois, no meio desses ouvidos, olhos ou faces remendadas.

Eu gostaria que essa farsa de sentimentalismo e companheirismo contínuo desabrochasse sem utilizar como predisposição o outro.

Eu gostaria de desentender essa mera importância do outro em nós. Essa necessidade de preenchimento, espontaneidade que nos colocam para expormos nossas babaquices e crendices.

Eu gostaria de desentender o constante sofrimento alheio, o vazio que carregam consigo por seu anseio de amor, de amar, de se amar.

Eu gostaria de idealizar o amor, trazendo sua forma não aceita, bruta, concreta. Isso me traria angústias menores, entregas às cegas e a morte do sensato.

Eu gostaria de desentender, mais ainda, aquilo que teimo estar. Porque só assim, não haveria culpa, mal estar ou arrependimentos. Haveria espaço para o real, para nosso núcleo e voz insconsciente. Dizem que é fundamental nosso auto-conhecimento, mas acredito que é mais doloroso do que a arquitetura da nossa felicidade.

Eu gostaria, pois, de desentender tudo que listei, mas acontece que fui treinada desde a infância a pensar nos outros antes de mim.
Ana Paula Morais 

domingo, 9 de dezembro de 2012

O aborto do amor

           Certa ocasião merecia desprezo. Mas foi cumprimentada pelo respeito ao passado. Com dúvidas e reticências, a primeira palavra foi proferida.
- O que trazes aqui? – pergunta, trêmula, Alice.
- Ainda não sei, Alice. – Responde ao mesmo tom, Otávio.
            Alice baixa o olhar. Espera por alguma reação, já que durante anos o silêncio respondeu por si só suas tragédias.
- Como pode vir a mim, após tanto tempo, ainda sem certezas? – Indaga, Alice.
- Eu tentei... – Otávio se perde em suas próprias conclusões.
            Alice está calada. Não consegue admitir que seu corpo inteiro demonstra desejo. Ela repete a negação em mente, enquanto Otavio a olha novamente.
- Não tive o que fazer, Alice. Simplesmente as coisas tomaram rumos diferentes...
            Alice continua calada. As palavras parecem atropelar os pensamentos e ela teme por falar o inconsciente mais uma vez.
- Sinto sua falta... Mas não posso... – Diz Otavio, reticente.
- Suas palavras nunca me fizeram falta, Oto. Não é agora que irão fazer.
 [Não aceito ele me perturbar assim. Não depois de tudo que vivi, de tudo que senti. Vou embora]
- Era só isso? – Pergunta Alice um tanto ácida.
- Não, Alice... Não se ofenda, por favor. Só quero ter a certeza de que nada irá se comparar ao que vivemos. Nada.
[O que ele veio fazer aqui? Arrancar-me a realidade e plantar sonhos inalcançáveis? Não. Isso não]
            Alice tira os cotovelos do joelho e se levanta. Não há o que se pensar. As folhas mudam. Os ventos mudam. O passado também muda. Sinto um cheiro de presente e reconforto. Oto não é mais o mesmo. Tem uma aparência cansada e infeliz. Diferente de anos atrás, da alegria estampada na pele.
- Do que adianta essa certeza?
            Otávio não me ama. Pergunto-me se algum dia me amou. Se todos os sonhos se diziam reais. Das promessas frágeis, findáveis, ingênuas. Certos acontecimentos nos remetem ao desespero. Certas alegrias inflamam a tristeza escondida. Certos amores cobrem a ferida, mas não curam a dor. Oto está perdido consigo mesmo. Não consegue admitir os erros a mim tramados. A vida não aceita retalhos. Alice está abatida, visivelmente transtornada pelo amor abortado. Não consegue sequer disparar murros em Oto. Os murros seriam beijos. E os beijos, o recomeço.

  Por: Ana Paula Morais

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Cinquenta tons de cinza e nada além disso

É certo que tive preconceito com essa série dos Cinquenta Tons de Cinza. Isso porque vi um trecho em um site da Revista Marie Claire, e achei muito batido, objetivo demais, além de infantil. Na hora, neguei qualquer vínculo com o livro. Mas, como ganhei de presente, tive que fazer as honras lendo o livro. Como diz, quem me presenteou: "Leia e critique com mais propriedade". Pois bem, aqui relatarei minhas constatações à primeira impressão do livro "Cinquenta Tons de Cinza"

Pra quem ainda não conhece, eis os detalhes:

Cinquenta Tons de Cinza (pt-Brasil) ou As Cinquenta Sombras de Grey (pt-Portugal) ou Fifty Shades of Grey (en) é um romance erótico bestseller da autora britânica Erika Leonard James publicado em 2011.
Os segundo e terceiro volumes são intitulado Cinquenta Tons Mais Escuros e Cinquenta Tons de Liberdade, respectivamente. Cinquenta Tons de Cinza está entre os mais vendido de uma trilogia que soma mais de 40 milhões de cópias em 37 países, ultrapassando o Harry Potter e o Código Da Vinci no Reino Unido.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cinquenta_Tons_de_Cinza

Bem, a história é de uma jovem de 21 anos, chamada Anastasia Steele, que está se formando em Literatura e que, após entrevistar Christian Grey , para um jornal da faculdade, se apaixona por ele. Christian então, mostra-lhe um mundo envolvido em sexo e submissão, em que Anastasia seria sua escrava sexual.

Nas primeiras páginas do livro, percebemos a acessibilidade da escrita para com os leitores. São termos ligeiramente corriqueiros, ratificando uma tradução pobre, mas bem objetiva. A história começa, e oscila entre algo muito ruim e algo tragável. Há momentos de risos? Sim, há. Porém, são esmagados pelos parágrafos alienados e personagens surreais dentro do livro. A personagem Anastasia mais parece uma jovem fora do mundo real e recheada de sonhos infantis. Nunca namorou, nunca se apaixonou e se apaixona por um homem rico e lindo. Nada diferente do que vemos nas novelas e estorinhas da TV. Além disso, é virgem, não tem celular, mas tem um fusca. Absurdamente uma personagem fora do contexto, para onde se passa a trama: Seatle. Christian Grey é um milionário, jovem, misterioso e atraente.

A personagem se descobre sexualmente com Christian. Ela aceita se submeter a práticas sexuais masoquistas, e, induzida por Christian, descobrir seu corpo e prazeres. Não irei fazer uma crítica aqui ao machismo contido no livro, visto que não foi essa a proposta do livro, penso, eu. As atitudes de Anastasia são tão ingênuas que acaba deixando a história morna, por vezes, patética, diante dos nossos pensamentos enquanto realizamos a leitura.

Mas, e o título do livro, a que se deve?
Bem... Essa é uma ótima pergunta. Mais uma coisa descoberta no livro sem qualquer ligação lógica com a história.

A leitura do livro é fácil. A história rende uns risos, mas não passa disso. Penso que toda a fama e venda exorbitante que o livro teve, deve-se a pouca literatura erótica escrita. Muitos são os paradigmas ainda a ser quebrados. A hipocrisia que guardamos frente a um mundo opressor é lançada ao vento quando nos deparamos com leituras como essa. Pra quem quer ajudar a se conhecer sexualmente, retornar à adolescência de uma maneira extremamente ingênua e passar o tempo, leia "Cinquenta Tons de Cinza". Mas para quem quer ir além da objetividade, tomar trechos como leituras de vida ou sentimentos e para quem preza um bom livro, espere ganhar o livro. Por via das dúvidas, não sairá do seu bolso, caso não goste.

Sei que não posso julgar fielmente uma trilogia baseada em um livro. Mas creio que nada de mais proveitoso estará escrito nos outros. Posso estar errada? Sim, claro. Então aguardo os dois seguintes.



sábado, 10 de novembro de 2012

Por ti, canto!

Quero-te como um pranto quente me queimando viva,

Percorrendo leve e beijando a face
Banhando inteira, minha boca livre.

Espero-te como a paz aguda a pertubar a terra,
Branqueando sonhos, arqueando vida,
Preenchendo a alma, curando a ferida.

Relembro os beijos quentes na noite morna,
Enquanto estás livre do meu alcance,
Retorno breve, desta noite, é a prece.

Mas mesmo longe, sinto seu odor,
Na escuridão das pálpebras frias,
Rosnando alto: “Alegria, Alegria”.

Por: Ana Paula Morais 


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Segue

Cinza cor dos meus olhos
tempo de chuva me encontrou
trouxe prisão e solidão
à mente afogada no passado.

Levou o presente tão latente,
trouxe desejo e frio ao peito,
que já tinha os levado ao próprio enterro.

Afoguei o juízo na nuvem pairada
rezando insana, por ti meu amor
apoiada em mim, sem luz, nem dor.

Devolve a terra para em ti soterrar,
levar teus sonhos que a mim pertuba,
livrar-me de vez, do teu som, resoluta.

Por: Ana Paula Morais