"E não maltrate muito a arruda, se lhe nçao cheira a rosas..."

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Morrer na praia

Intrometer-se.
Fingir estar escrevendo, imaginar você lendo.
Atento.
Um texto pequeno. Sem nada.
Nada vivo, nada salgado, nada amigo.
A tristeza da falta da escrita, do desejo de impulsar.
Temer a palavra quando pronunciada com e cincunflexado.
Maldito. Azarado, somos nós. Neste momento esquecido o verbo porque o nome agora está sendo lido com ódio de um Brasil tão maltratado.
Sair da rota. Arrotar.
Comer. Andar.
Rotinizar palavras. Inventar. Barbarizar.
Alcançar o quê?
Sei lá.
Partir. Ficar.
Cair no meio, deitar e rolar.
Sem rimas. Sem desejos.
É só um texto.
Sem fim, nem começo.





Por Ana Paula Morais

terça-feira, 29 de julho de 2014

Ade...

Arqueei minha sobrancelha quando o vi chegar tão sério e pálido. Sabia das emoções passadas e do quão vago ele estava. Disfarcei e continuei lendo um livro de Kundera. Ele estava com uma bolsa nas costas, um sapato velho e um cheiro de passado. Seus olhos estavam fitados nos azulejos da sala. A professora desconhecia seus pupilos, continuava a reforçar as noventa e duas páginas para serem lidas em casa. Escrevi um bilhete que dizia "Passou?", mas ele não respondeu. Ao contrário do esperado, ele retirou sua alma do ar. Elevou seu corpo à música que parecia ouvir com os olhos fechados. Lembrei de uma história antiga, que minha vó já contara sobre o amor dos contos de fada. Imortalizei aquela lembrança enquanto não tirava os olhos de Paulo. Ele, lentamente, posicionou sua retina em mim. Gritava sua vergonha para mim. Mas eu não o compreendia. Eu não consegui empatizar sua lesão. Paulo é diferente de todas as pessoas que conheci. É de uma sensibilidade mórbida que me aflige. Decidi ir ao banheiro, lavar o rosto dessa resposta áspera que ele me privou. No caminho, voltei para pegar minha agenda, Paulo não estava mais. Olhei pela janela, mas não o vi. Minha agenda estava embaixo da carteira e me refletia solidão. Eu a ganhei num sorteio em uma palestra sobre bipolaridade no centro da cidade. Ela era cor de terra, com páginas simples e um cordão azul. Dentro, vi as letras de Paulo. Corri para as árvores do pátio onde sob elas, li:

"Clara, certamente não mais existirei ao ler essa carta. Terei partido cedo com meus pés cansados e minha poesia fadada. É muita coisa que queria lhe dizer, mas como havia prometido esta carta, deixarei aqui somente minhas companhias. Perdão pela descrença, Clara. Passei anos atraindo um caráter que não era meu por pessoas que não eram minhas, por verdades que eram mentiras. Eu te amei. Amei como algo sublime, como o  encanto das nuvens a derramar chuva, como uma criança correndo no parque ao final da tarde. Desejei todos os dias aquele sorriso ainda de olhos fechados pela manhã, aquele seu odor que me acompanhou durante meses por onde estive. Nunca te agradeci pelo amor que me destes, pela confiança que me amarrasse às mãos. Matei você a facadas longas, a sangue fino, a cada ausência declarada e, refiz-me. Forte como achava ser, honesto como uma mãe a um filho, ferido como um passarinho a voar. Eu te amo, Clara. Por favor, enterre-me. Teu Paulo."

Paulo estava morto na calçada da escola. Com a mesma insatisfação de anos atrás. Havia carros por todos os lados, pessoas gritando, algumas chorando. Levei Paulo para casa, abraçado na sua blusa amarela. Reli sua carta e beijei seus pés. Havia um copo em cima da pia. Misturei com água a despedida. Ao lado de Paulo, estavam minhas pernas, entre seus dedos os meus. Ali, partimos, sozinhos.

...us.

Por Ana Paula Morais.





quinta-feira, 17 de julho de 2014

Destroços

Daquilo angustiado, prende o peito
na cama farta que me arfou a morte,
agora alegra os passos da partida.

Dos meses em cacos, perfurando olhos
nos riscos da retina ouve-se a voz
"Alivia mais a cada privação sentida".

No chão, escoro as costas, cansada,
do verme manto do desprezo
da alegoria infame dos beijos.

Hei de ouvir o eco do nó desatado
"Aproveita a chuva e liberta-se, amada!"
- Teu sangue bebi, amaldiçoada.

Lambi os dedos engatilhados,
com verdades mesquinhas expostas no pó,
varridas ao vento, esfacelaram-se.

Correndo sob a nuvem, na chuva, 
vesti tua lama e andei nas ruas,
cuspi o inferno, brandei a lua.

[ Em vidas passadas, li uma vez
eu era curandeira em outro país.
Pobre, simples, curava as dores,
do mundo, da carne, dos homens famintos.
- Mas, ó que desatino o meu,
guardei minha cólera para esta vida terrena,
que agora me mata, sem cura à vista! ]

Lavei os pés ao chegar em casa,
molhada da chuva em meados de julho,
agora me prende essa chuva fina,
me nega o sol para respirar a vida.

Dois versos são reais, e mais reais foram sua vida.
Que a mim cegou tão longínquo tempo,
agora desnuda teus olhos mendigos,
de afeto e beijos regados à vela.

Partiu, serena, tão jovem donzela,
que donzela não mais era,
por rasgar-se tanto,
de pranto, de medo,
de desengano.

Por Ana Paula Morais.






sexta-feira, 11 de julho de 2014

Descrente


Foi-se a democracia sentimental. Vazou, findou, estrangulou-me. Ernesto tem compartilhado dizeres ofensivos, maltratados sobre minha postura pragmática e alusiva sobre os versos ouvidos na calçada. É mister que meu absurdo se decompõe na [des]história de mim. Assim como é arrogante pensar o quão vazia permaneço quando a aresta se preenche, momentaneamente, com sua passagem.

- Volte aqui! Repete Ernesto.
E por mais que eu me esforce para olhar de canto, desdenhando seu desejo. Eu sorrio, vagabunda, ao seu olhar insistente.


Parti, não por merecimento, mas como medida desesperada antes que o berro ultrapassasse a esquina. Logo vi, ao dobrá-la, o quão estava morta, sem odor, sem verso, sem dentes. A minha carne repara na sua insistência mal vista, encara-te por intermédio de palavras desencontradas. Surpreende-te, sutilmente, ao reler seus versos tortos, mortificados.


Não creia, Ernesto. Porque mesmo que amá-lo de fato me salvaste, não era meu coração sua ambição. Seria minha escravidão, meu ímpeto, meu sangue. E ainda assim, você me diria, sorridente:


- Não é o bastante.

Por Ana Paula Morais.

 Imagem do filme "Os miseráveis" (2012)

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Eu preciso arrotar

Cansei do copo furado,
de boca pra baixo.
Cansei da voz na bicicleta vendendo tapioca.
Cansei da reclamação, da conta zerada, da cerveja quente, da calça folgada.
Cansei de parir histórias, de reclamar dos jogos, do banho quente,
da virilidade.
Cansei de pedir atentamente, com voz mansa, o atendimento desbocado, das flores, das igrejas, das irmãs.
Cansei do tédio, do frio, da tv a cabo, da panela engordurada, da ligação com o super crédito.
Cansei dos olhares olhando, refletindo a palavra repetida nessa frase.
Cansei da humanidade, do corpo, do sexo, do gozo.
Cansei da minha assexualidade, do retorno ao bar da esquina, da cachaça vomitada.
Cansei dos filmes, do relógio, dos óculos de sol e da maquiagem borrada.
Cansei dos livros, das letras, dos dedilhados, do violão e da voz do cantor.
Cansei das vogais, do céu, da chuva, da lua nova, da paz iludida, das fotos mentirosas sobre o dinheiro que não se tem.
Cansei de ler erotismo, de publicar peitos e bocas, de desejar mulheres, de menosprezar os homens.
Cansei dos namoros na esquina, dos jovens arrotando seus lanches e jurando amores tranquilos.
Cansei da minha falsidade e da minha honestidade serem tomadas de mim, como órgão sexual, estuprado.

Cansei da sua mão em mim, da sua lambida e do seu cheiro.
Cansei da cidade, das ruas com quadrados verde e amarelo, do cheiro das tintas, das capas dos celulares.
Cansei do som das manhãs, do ninho dos pássaros, das cobras e das amigas.
Cansei do preço das lojas, dos sapatos caros, da carteira vazia.
Cansei dos hospitais, dos médicos, da delicadeza do açougueiro.
Cansei dessa escrita,
desse texto
e da minha cara bonita.
Cansei de dar voz ao mundo, dessa inspiração patética em dias infelizes.
Cansei de você nesse momento, por ter lido
e cuspido esse texto
mal escrito.

Ana Paula Morais








quarta-feira, 3 de julho de 2013

Oxente, que exame é esse?

Assim que eu entro na sala toda na cor branca, a moça pede que eu sente na cadeira. A cadeira é aquelas que a gente senta pra tirar sangue, sabe? Ela pede pra eu tirar o casaco. Não entendi muito bem, já que era só eu “vastar” a manga que ela tirava meu sangue, mas obedeci. A moça vem para o meu lado esquerdo e amarra um laço azul acima do meu cotovelo.
- Vou deixar esse laço aí 5 minutos, tá?
- Ok. – Respondo mesmo sem entender.

Pensei: “deve ser porque prendendo a circulação de um lado do braço, vai mais sangue pro outro braço, né?”. Enquanto isso, a moça tira sangue do meu braço direito. Ela é rápida e eu nem senti a picada. Com os minutos passando começo a ficar agoniada com o braço já ficando vermelho de sangue.
- Ô moça, pra que é que esse laço tá aqui? – pergunto, curiosa.
- É o exame do laço. É pra saber como é sua coagulação.
- Ahh... Oxente! E como é o resultado disso?
- Se seu braço ficar cheio de patoca branquinha é porque você tem algum problema com as plaquetas ou no sangue, se não, é porque tá normal... - Explica a moça calmamente.
- Hummmm... Interessante!

A moça mais uma vez se aproxima de mim com uma agulhinha pequena e vai em direção a minha orelha.
- Oxente, moça! Tu vai furar minha orelha também é?
- É só um furinho!
- E pra quê?
- Pra saber como é a sua coagulação. A cada 15 segundos eu limpo o sangue...
- Armaria, que exame mais chei de coisa... – falo rindo e a moça ri comigo.

Depois que ela soltou o laço do meu braço, ela ainda continua secando minha orelha com um lencinho. O exame terminou e vou embora lembrando do bendito laço.


Nunca pensei que pra arrancar um dente precisasse de tanta coisa...

Por Ana Paula Morais.


Novo mesmo é o meu marido!

Eram duas senhoras ao meu lado. Uma aparentemente com 50 e poucos anos, muito simpática e conversadeira. "Desculpa se eu converso muito viu, moça? É que só assim o tempo passa mais rápido". Mas não é que eu desgostei do jeito dela. O fato é que às 6 horas da manhã, o cérebro ainda está metade na sua cama e a outra metade ainda acordando. A outra senhora era mais quieta. Parecia ter uns 60 e poucos anos. E as duas puseram a conversar.

- É a primeira vez que a senhora vem nesse médico, né? - pergunta uma delas retomando a conversa sobre o nome do médico.
- É sim. Por isso que eu não sei o nome dele. Vou saber hoje quando eu for, né? 
- É sim. Oia, meu marido também tem problema de cabeça, visse? De vez em quando ele fica esquecendo as coisas, mei cansado...
- E é, né? Apois eu tô desse jeitinho. Esquecendo as coisas, às vezes nem sei onde eu tô... - diz balançando a cabeça com uma certa tristeza com tal afirmação.

A outra senhora ouve tudo muito atenta e se sensibiliza com o desgosto da "amiga" em andar meio esquecida.

- É, mas meu marido é novo. Tem só 87 anos... 

A outra olha assustada e repete com a boca cheia:
- E eu tenho 67!

Nessa hora, tive que conter o momento vergonha alheia.

Por Ana Paula Morais

Imagem retirada do site: www.otempo.com.br

sexta-feira, 28 de junho de 2013

É médico de quê?

Era por volta das 6 e 40 da manhã, quando o sol frio aparecia mansinho na fila de consulta. Não tinha mais que oito pessoas ali. Cada qual carregando seus papéis e suas dúvidas. Duas senhoras e um senhor juntaram-se a mim. Não entendi, uma vez que meu silêncio causava espanto a eles. Talvez essa tenha sido a atração. 
Um senhor se aproxima e diz que operou o joelho faz um mês e que tinha ficado menor que o outro. Segundo o médico - assim, ele narrou -, era normal. Uma outra senhora diz que veio para o retorno da cirurgia do segundo joelho. E eu, ali calada, respondi quando questionada: "Estou guardando a vaga para o meu pai enquanto ele tira o raio-x". No entanto, uma outra senhora que estava próxima, só observava e segurava uma sacolinha com papéis. Não parecia estar afim de conversa. Ainda assim, o senhor se aproximou:

- A senhora vai pra qual médico? - perguntou ele.
- Eu não sei não. - respondeu meio ríspida a senhora.
- Oxe, comé que a senhora num sabe o nome do médico? - questionou o senhor um tanto inconveniente.
- Oxe e porque eu tenho que saber? Eu marquei a consulta. Quem tem que saber o meu nome é a mulé que me atendeu.
- Mas a senhora num perguntou não? Pegou nenhum papel? - indaga o senhor ainda inconformado.
- Eu não. Eu liguei pra cá. Eu marquei por telefone. Como é que eu ia ter um papel? - responde a senhora já irritada.
- Num é mulé? Pra quê? - pergunta se dirigindo a uma outra mulher ao seu lado.
- É, mulher. Eles tem lá anotado.

O silêncio percorre entre eles por uns 40 segundos. Mas a dúvida teria que ser sanada. 

- Mas é medico de quê, senhora? - pergunta, curiosa.
- É médico de cabeça.
- Ahhh...

E o silêncio se instala.

Por Ana Paula Morais

.




(Foto ilustração: Filme Histórias que só existem quando lembradas - 2011)







quinta-feira, 27 de junho de 2013

[ O RISCO


Adoeci entre linhas e lábios adormecidos,
Na poeira dos riscos encontrei meus passos.
Fatigados, lentos e sujos.
Nomeei choros, angústias, incertezas,
Abracei meu corpo, beijei a alma do passado,
e quando menos esperei,
retornei aos rastros do presente.
Fui à luz.
Cantei com os hinos do coração.
Dei-lhe a mão pequenina
e o peito acelerando os sentimentos.
Fiz um bolo de papel e pus no lixo.
Amanhã, quem sabe, servirá de exemplo.

Mas não tardará ouvir sua voz,
o tom é diferente e é assim que será;
aqui, quiça, um aperto de mão.
A felicidade reinará nos quartos,
em cada lamento mastigado,
e em cada cura, uma cicatriz:
nada mais haverá de ser lembrado.

E O EMBORRACHADO].


Por: Ana Paula Morais


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Meu sapato fez-me um calo.

 
De tanto rodear avenidas,
meu sapato fez-me um calo.
Falei com todos da rua,
pessoas batendo às portas
procurando por garrafas vazias.
Eu, sentada, assistia a tudo, atenta.

Rodei, dei a volta a esquina,
ali, parado, um senhor contava as moedas
recebidas do troco pela bebida:
"tá tudo caro, minha fia",
respondi com um sorriso,
"nem a bebida se salvou".

A cada passo, o salto me bloqueava,
entrando nas arestas
do calçamento fresco.
Adiantei, bati à porta:
"oh, de casa",
ninguém me ouvia.

Era ele minha agonia.
Eu sabia que ali morava,
mas a casa, desconfiava.
A chuva começa
sorrio, descrente:
"era só o que faltava".

No meio da rua ouvi um grito.
Sentada na área de casa,
uma menina mergulhava sua boneca
numa encharcada bacia.
"toma banho, filhinha".

Com os cabelos assanhados,
bati três portas,
não se ouve,
não se vê,
não se sabe,
de ti, ninguém sabia.

Finalmente ao fim da rua,
atirei os sapatos,
com os calos inflamados.
Avistei sua sombra
frente a uma porta.
Inteira, eu estava,

a você eu me entregava.

Por: Ana Paula Morais


sexta-feira, 3 de maio de 2013

Um balde


Há quem precise de palavras que arrematem uma vida ou uma esperança.
Como também há quem dispense beijos rodados na esquina com juras quebradas de tesão.
Outros dirão "Essencialmente, permaneço em mim", vozes, responderão "Ali, aqui...".
Há algo que não é descrito, sentido, visto ou falado, o desconhecido. Houve mundos felizes com pessoas agraciadas pelo amor, perdão e compaixão: um quadro rasgado.
Ouve-se "Sejam felizes", "Corram" "Libertem-se" "Viva" em frente a crianças brigando por um brinquedo quebrado.
Nega-se amor, perdão, aperto de mão, carinho, audição. Choramos música, vídeos, filmes de nossas vidas em nossos sonhos.

Derrame agora esse balde em mim. Cubra-me com teus beijos. Agarre-me no último suspiro. Cante para mim em meu ouvido. Carregue-me nos braços rua afora. Molhe meu corpo com a chuva. Grite o que negas a cada instante. Liberte seu lado imperativo.
Depois vague, vague em meus sonhos.
E acorde-me.

Por: Ana Paula Morais

Música: Once
Artistas: Glen Hansard e Marketa Irglova

quarta-feira, 13 de março de 2013

Ao copo

Honestamente, há álcool em mim.
Álcool pra sorrir tudo que escorre entre os dentes, toda agonia que me condena todos os dias, incessantemente.
Fechando os olhos a sentir o que me consta e me carrega horas a fio.
No silêncio do soluço regado a copos e choros mortos.
Honestamente, há álcool em mim.
Álcool para gritar sua vida de merda regada a pão e vinho.
Álcool para arranhar sua cara mordida pela vadia da esquina.
Álcool para alcançar sua estupidez nojenta dos amores ternos que coleciona. Insano.
Álcool para regar seus beijos carnudos das épocas bobocas nuns tempos de chuva e música.

[Homem inescrupuloso, ardiloso, longe da felicidade apropriada que pus à mesa, regada a libido, plenitude e correntes.]

Honestamente, há álcool em mim.
Álcool regando pulmão, rim, coração, útero e sua imbecil imaginação.
Há álcool em mim, sugando sua covardia quando larguei minhas pernas em bandeja a teus serviços, amor e vícios.
Álcool ungido à alegria, plenitude, feliz idade, à nossa, a luzir...

Há álcool em mim.
E dos tolos mais empobrecidos, cascudos, repulsivos e degenerados,
és o que me põe no copo, os desejos mais densos, adormecidos e vivos,
sonhados em ser:

Feliz.
 Ana Paula Morais
 
 

segunda-feira, 11 de março de 2013

Infortúnio

Hipnotizada, ando.
Como a retina cruzando teus passos,
arrastando a poeira do velho vaso.

E se acaso for, 
Não devolva os beijos, outrora dados,
O mar limpará os rabiscos rasos.

Não quebre os dedos, agora cruzados,
soando um futuro já abortado.

Livra-me padre, deste agonia,
fazendo a cruz por cima dos lábios,
molhados e vivos,
cheirando a pecado.

 Receba esta carta e leia de bom grado,
que de tristeza não morro,
se teu amor, a mim, foi derramado.

Ana Paula Morais


terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Prece

Esperando piedosa a cor voltar às maças do rosto. Tremi só de pensar em não resistir ao novo milênio. Os fogos queimaram todo o céu com cores variadas e sons típicos. Crianças correndo e caindo enquanto recebem sorrisos e gritos dos pais. Uma tela enorme com recortes de vida de cada um, ali, se estendendo à visão do mundo. Nobres pais abraçando os filhos e outros calados segurando um terço. Famílias sentadas à porta brindando amores, paz e segredos. Casais aos beijos rodopiando no meio da rua, outros paralisados soltando as mãos. Migalhas estendidas às pessoas nas calçadas, outros de tão deslumbrados, pedindo a Deus sua salvação. Não há com o que se preocupar. Gritamos "Again" no entrelaçar dos segundos. Os animais parecem extintos. Encolhidos no fundo do quintal ou arregalados, espelhando o medo. Mas o principal estava por desvendar-se: Sê. No encontro dos lençóis não pedi mais do que isto: o desencanto do passado, o brinde ao amor largo.

Por Ana Paula Morais

sábado, 29 de dezembro de 2012

Para chuva, com amor...

Não lembro do seu choro. Isso porque há tempos meu solo traz alguns pedregulhos com barro batido. Resquícios seus. Não quero culpá-la pela minha dureza, nem pelas flores que eu não sirvo, mas quero alertá-la para as maldades do mundo que insistem em levá-la ao céu. Quando fico em alerta, meu corpo cede, abre rachaduras finas que vão se alongando com o tempo. Corre o risco de prender o pé em meu peito e derrubar sobre mim seu peso. Isso doi bastante. Não tê-la é um sacrifício desgastante. Tudo resseca. Morre. Ameaça. E quando penso que minha reserva de água está por secar, o corpo, num desafio de sobrevivência, espreme gotas das raízes, fazendo-me sufocar. Não sei o motivo do castigo. Passei um tempo te provocando, evocando seu barulho, em silêncio. E você correspondia. Você me acompanhava. Há quem julgue-me como enterrada ao passado, uma carcaça fétida, rumo ao desengano. Mas isso não é verdade. Você anuncia no altar dos sonhos sua chegada. E eu, sorrindo, abro os olhos. Enganada. Só te peço, querida, não mastigue meu suor com tanta fome. Não te peço apenas uma lágrima. Quero banhar o rosto e soluçar contigo. Quero lavar a alma e recomeçar.

Por Ana Paula Morais


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Eu gostaria

Eu bem gostaria de desentender a solidão, partindo do que há de mais complexo em ser humano. Isso porque o que afirmamos diariamente com bons modos, respeito, educação, cai por terra na falta de ouvidos, olhos ou faces remendadas. Essa tal solidão fixada na mente, não desaparece, ora pois, no meio desses ouvidos, olhos ou faces remendadas.

Eu gostaria que essa farsa de sentimentalismo e companheirismo contínuo desabrochasse sem utilizar como predisposição o outro.

Eu gostaria de desentender essa mera importância do outro em nós. Essa necessidade de preenchimento, espontaneidade que nos colocam para expormos nossas babaquices e crendices.

Eu gostaria de desentender o constante sofrimento alheio, o vazio que carregam consigo por seu anseio de amor, de amar, de se amar.

Eu gostaria de idealizar o amor, trazendo sua forma não aceita, bruta, concreta. Isso me traria angústias menores, entregas às cegas e a morte do sensato.

Eu gostaria de desentender, mais ainda, aquilo que teimo estar. Porque só assim, não haveria culpa, mal estar ou arrependimentos. Haveria espaço para o real, para nosso núcleo e voz insconsciente. Dizem que é fundamental nosso auto-conhecimento, mas acredito que é mais doloroso do que a arquitetura da nossa felicidade.

Eu gostaria, pois, de desentender tudo que listei, mas acontece que fui treinada desde a infância a pensar nos outros antes de mim.
Ana Paula Morais 

domingo, 9 de dezembro de 2012

O aborto do amor

           Certa ocasião merecia desprezo. Mas foi cumprimentada pelo respeito ao passado. Com dúvidas e reticências, a primeira palavra foi proferida.
- O que trazes aqui? – pergunta, trêmula, Alice.
- Ainda não sei, Alice. – Responde ao mesmo tom, Otávio.
            Alice baixa o olhar. Espera por alguma reação, já que durante anos o silêncio respondeu por si só suas tragédias.
- Como pode vir a mim, após tanto tempo, ainda sem certezas? – Indaga, Alice.
- Eu tentei... – Otávio se perde em suas próprias conclusões.
            Alice está calada. Não consegue admitir que seu corpo inteiro demonstra desejo. Ela repete a negação em mente, enquanto Otavio a olha novamente.
- Não tive o que fazer, Alice. Simplesmente as coisas tomaram rumos diferentes...
            Alice continua calada. As palavras parecem atropelar os pensamentos e ela teme por falar o inconsciente mais uma vez.
- Sinto sua falta... Mas não posso... – Diz Otavio, reticente.
- Suas palavras nunca me fizeram falta, Oto. Não é agora que irão fazer.
 [Não aceito ele me perturbar assim. Não depois de tudo que vivi, de tudo que senti. Vou embora]
- Era só isso? – Pergunta Alice um tanto ácida.
- Não, Alice... Não se ofenda, por favor. Só quero ter a certeza de que nada irá se comparar ao que vivemos. Nada.
[O que ele veio fazer aqui? Arrancar-me a realidade e plantar sonhos inalcançáveis? Não. Isso não]
            Alice tira os cotovelos do joelho e se levanta. Não há o que se pensar. As folhas mudam. Os ventos mudam. O passado também muda. Sinto um cheiro de presente e reconforto. Oto não é mais o mesmo. Tem uma aparência cansada e infeliz. Diferente de anos atrás, da alegria estampada na pele.
- Do que adianta essa certeza?
            Otávio não me ama. Pergunto-me se algum dia me amou. Se todos os sonhos se diziam reais. Das promessas frágeis, findáveis, ingênuas. Certos acontecimentos nos remetem ao desespero. Certas alegrias inflamam a tristeza escondida. Certos amores cobrem a ferida, mas não curam a dor. Oto está perdido consigo mesmo. Não consegue admitir os erros a mim tramados. A vida não aceita retalhos. Alice está abatida, visivelmente transtornada pelo amor abortado. Não consegue sequer disparar murros em Oto. Os murros seriam beijos. E os beijos, o recomeço.

  Por: Ana Paula Morais

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Cinquenta tons de cinza e nada além disso

É certo que tive preconceito com essa série dos Cinquenta Tons de Cinza. Isso porque vi um trecho em um site da Revista Marie Claire, e achei muito batido, objetivo demais, além de infantil. Na hora, neguei qualquer vínculo com o livro. Mas, como ganhei de presente, tive que fazer as honras lendo o livro. Como diz, quem me presenteou: "Leia e critique com mais propriedade". Pois bem, aqui relatarei minhas constatações à primeira impressão do livro "Cinquenta Tons de Cinza"

Pra quem ainda não conhece, eis os detalhes:

Cinquenta Tons de Cinza (pt-Brasil) ou As Cinquenta Sombras de Grey (pt-Portugal) ou Fifty Shades of Grey (en) é um romance erótico bestseller da autora britânica Erika Leonard James publicado em 2011.
Os segundo e terceiro volumes são intitulado Cinquenta Tons Mais Escuros e Cinquenta Tons de Liberdade, respectivamente. Cinquenta Tons de Cinza está entre os mais vendido de uma trilogia que soma mais de 40 milhões de cópias em 37 países, ultrapassando o Harry Potter e o Código Da Vinci no Reino Unido.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cinquenta_Tons_de_Cinza

Bem, a história é de uma jovem de 21 anos, chamada Anastasia Steele, que está se formando em Literatura e que, após entrevistar Christian Grey , para um jornal da faculdade, se apaixona por ele. Christian então, mostra-lhe um mundo envolvido em sexo e submissão, em que Anastasia seria sua escrava sexual.

Nas primeiras páginas do livro, percebemos a acessibilidade da escrita para com os leitores. São termos ligeiramente corriqueiros, ratificando uma tradução pobre, mas bem objetiva. A história começa, e oscila entre algo muito ruim e algo tragável. Há momentos de risos? Sim, há. Porém, são esmagados pelos parágrafos alienados e personagens surreais dentro do livro. A personagem Anastasia mais parece uma jovem fora do mundo real e recheada de sonhos infantis. Nunca namorou, nunca se apaixonou e se apaixona por um homem rico e lindo. Nada diferente do que vemos nas novelas e estorinhas da TV. Além disso, é virgem, não tem celular, mas tem um fusca. Absurdamente uma personagem fora do contexto, para onde se passa a trama: Seatle. Christian Grey é um milionário, jovem, misterioso e atraente.

A personagem se descobre sexualmente com Christian. Ela aceita se submeter a práticas sexuais masoquistas, e, induzida por Christian, descobrir seu corpo e prazeres. Não irei fazer uma crítica aqui ao machismo contido no livro, visto que não foi essa a proposta do livro, penso, eu. As atitudes de Anastasia são tão ingênuas que acaba deixando a história morna, por vezes, patética, diante dos nossos pensamentos enquanto realizamos a leitura.

Mas, e o título do livro, a que se deve?
Bem... Essa é uma ótima pergunta. Mais uma coisa descoberta no livro sem qualquer ligação lógica com a história.

A leitura do livro é fácil. A história rende uns risos, mas não passa disso. Penso que toda a fama e venda exorbitante que o livro teve, deve-se a pouca literatura erótica escrita. Muitos são os paradigmas ainda a ser quebrados. A hipocrisia que guardamos frente a um mundo opressor é lançada ao vento quando nos deparamos com leituras como essa. Pra quem quer ajudar a se conhecer sexualmente, retornar à adolescência de uma maneira extremamente ingênua e passar o tempo, leia "Cinquenta Tons de Cinza". Mas para quem quer ir além da objetividade, tomar trechos como leituras de vida ou sentimentos e para quem preza um bom livro, espere ganhar o livro. Por via das dúvidas, não sairá do seu bolso, caso não goste.

Sei que não posso julgar fielmente uma trilogia baseada em um livro. Mas creio que nada de mais proveitoso estará escrito nos outros. Posso estar errada? Sim, claro. Então aguardo os dois seguintes.



sábado, 10 de novembro de 2012

Por ti, canto!

Quero-te como um pranto quente me queimando viva,

Percorrendo leve e beijando a face
Banhando inteira, minha boca livre.

Espero-te como a paz aguda a pertubar a terra,
Branqueando sonhos, arqueando vida,
Preenchendo a alma, curando a ferida.

Relembro os beijos quentes na noite morna,
Enquanto estás livre do meu alcance,
Retorno breve, desta noite, é a prece.

Mas mesmo longe, sinto seu odor,
Na escuridão das pálpebras frias,
Rosnando alto: “Alegria, Alegria”.

Por: Ana Paula Morais 


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Segue

Cinza cor dos meus olhos
tempo de chuva me encontrou
trouxe prisão e solidão
à mente afogada no passado.

Levou o presente tão latente,
trouxe desejo e frio ao peito,
que já tinha os levado ao próprio enterro.

Afoguei o juízo na nuvem pairada
rezando insana, por ti meu amor
apoiada em mim, sem luz, nem dor.

Devolve a terra para em ti soterrar,
levar teus sonhos que a mim pertuba,
livrar-me de vez, do teu som, resoluta.

Por: Ana Paula Morais