sábado, 23 de julho de 2011

Monologando

Parei por uns instantes e encolhi os pés. Aquele frio que pensei não chegar as mãos, desceu ao calcanhar. Tentei me concentrar na minha mente, no que ela me questionava. Mas o próprio fato de tentar já borbulhava várias outras possibilidades de ocupar a mente com um possível não-pensar. Se é que é possível. Ao tempo que encolhia os pés, debruçava o pescoço sobre a cabeceira. Quis aproveitar o frio. Entreguei-me à melancolia extrema que só ele sabe afundar seus seguidores. Pensei em um café, mas se eu me distraisse por um instante perderia o gozo da tristeza. Sim, da tristeza. Porque toda melancolia carrega tristeza, mas nem toda tristeza carrega melancolia. A melancolia é um sentimento dócil e duradouro que arrasta discípulos, que os domina e tornam devotos. Mas não é que ela machuque. Pelo contrário, ela traz delírios e inspirações que nem mesmo o amor conseguiria alcançar exímia homenagem. Rápido! Papel e lápis. Preciso registrar esse engasgo. Não, não. É melhor deitar e engolir a saliva.

Por Ana Paula Morais


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