sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sossega Coração!


Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme.
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Sossega coração e adormeça !

Fernando Pessoa

Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira


Canto

Impacto laminoso dos lábios meus,
Ao fitar-te assim sob íris lente.
No feixe tocante dos olhos teus,
Debruço-me em desejo de ter-te em mente.

E revelo meus aléns em noites nuas,
Em bálsamos profetas de cor em breu.
Nos lábios quentes da luz das luas,
Faz-se reflexo teu amor, amor meu.

Agora ausente caibo em ti,
E respiro ardente teus quereres,
Quando aos pés da noite, causa-me espanto.

E ver-te em lentes quero a ti,
Quando a pureza trouxe-me viveres,
Da alvorada bela um doce encanto.
(Escrita em 20/12/2008)
 Por Ana Paula Morais 

Nascinconsciente


Que te pertuba, coração narcisista
Que te pertuba, a visão pentecostal
Se meu discurso vai ser nacionalista
Se meu olhar não se pôr horizontal?

Pois trago neste coração, uma serpente
Que nem tua mente de vistoso charlatão
Alcançaria exímia luz tão de repente
Ao meu bom grado, Oh Senhor de ostentação!

Agora parta, coração carne valente
Deixe a prata que o brilho quis jantar
Volte a quem descobriu já não ser mais.

Que num dia levarei se não no dente
Toda a vida que outrora vi cantar
Toda pátria que partiu longe do cais
(Escrita em12/04/2009)

Por Ana Paula Morais 

Vivenciando a vida


E por mais que a gente ande sobre os percalços, há sempre andares mais altos, mais longos, mais infindáveis. Mas é neles que nos arregamos. Porque nem tudo é alma, nem tudo é festa. Mas criamos recordações, retomamos atitudes, dispensamos outra vida, damos lugar a um novo ego. E mesmo com toda a inquietação que escrevo, é com plenitude que estendo a paz que me consome. Porque nem tudo é barulho, mas tudo faz ruído. Nem todos os sonhos são desregrados, porque nossa vida abre espaço para não sermos a regra. E quando se rompe a felicidade, os espaços são preenchidos por bem estar e glória. Bem-estar de consumir o momento e tentar reproduzi-lo e glória de majestar a Vida, de exautar o Eu. Em paz, agora me preservo, indefinida, enfim, me encontro.
(Escrita em 09/01/2010)
 
Por Ana Paula Morais 


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Colorir

Chuva pra comer com açúcar.
Açúcar pra lamber o dedo.
Dedo pra desapontar o rosto.
Rosto pra pintar os lábios.
Lábios pra molhar os olhos.
Olhos pra comprar a carne.
Carne pra fritar com sol.
Sol pra tingir cabelo.
Cabelo pra cortar o medo.
Medo pra acordar a luz.
Luz pra mostrar o corpo.
Corpo pra gritar desejo.
Desejo pra ouvir amor.
Amor pra querer de graça.
Graça pra sorrir Maria.
Maria pra calar José.
José pra me dar conselho.
Conselho pra rasgar dinheiro.
Dinheiro pra correr pelado.
Pelado pra crescer o músculo.
Músculo pra bombear sangue.
Sangue do começo ao fim.
Fim pra calar a boca.

Por Ana Paula Morais.