quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Quase um sonho

Lavada as mãos, carinhosamente toquei o rosto. Aquela face doce me inspirava a instigar sorrisos pela praça. Prendi o cabelo com um laço amarelo, dei duas voltas fazendo um rabo de cavalo. Nunca gostei muito de amarrações tradicionais com rabicós coloridos, vendidos aos montes. Gosto dos tecidos simples, que dão cor e graça a quem decide usar. Meu vestido rodado tem lá suas armações. A meiguice contida na face dá lugar à outra imagem entre as pernas.

Pisei leve na calçada por conta do cimento fresco. Fui até a rua seguinte, sentindo o vento levantar os babados do vestido. Imaginei-me às margens de um rio, molhando os dedos e as pernas, o vento frio do fim de tarde. A água percorrendo o corpo macio, cheirando a pêssego. O perfume acarinhando o rio, como uma leve brisa na superfície, criando uma proteção entre o sonho e a natureza. 

- Ó, Mestre, que me negas nesse dia deixando-me afogar nestas águas? 

Sinto um carinho leve nos cabelos, como um aconhego de um bem amado. Acordei atordoada com a água lambendo-me o corpo.  

Por Ana Paula Morais


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Resolvi

Resolvi me vingar,
dos frutos perdidos em pleno verão,
das águas perdidas caindo da mão,
do mundo partido, já sem coração.

Resolvi encarar,
as vistas amargas lançadas ao ar,
os erros singelos em querer amar,
a gota de sal cortando o olhar.

Resolvi recordar,
os abraços contidos ainda na infância,
as quedas sofridas sem olhar de vingança,
os sorrisos sinceros entre duas crianças.

Resolvi me vestir,
das linhas cruzadas num aperto de mão
abrir espaço ao amor, alegria e perdão,
festejar todo bem causado ao coração.

Por Ana Paula Morais 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Assim que te quero

É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro. 

Pablo Neruda