quarta-feira, 13 de março de 2013

Ao copo

Honestamente, há álcool em mim.
Álcool pra sorrir tudo que escorre entre os dentes, toda agonia que me condena todos os dias, incessantemente.
Fechando os olhos a sentir o que me consta e me carrega horas a fio.
No silêncio do soluço regado a copos e choros mortos.
Honestamente, há álcool em mim.
Álcool para gritar sua vida de merda regada a pão e vinho.
Álcool para arranhar sua cara mordida pela vadia da esquina.
Álcool para alcançar sua estupidez nojenta dos amores ternos que coleciona. Insano.
Álcool para regar seus beijos carnudos das épocas bobocas nuns tempos de chuva e música.

[Homem inescrupuloso, ardiloso, longe da felicidade apropriada que pus à mesa, regada a libido, plenitude e correntes.]

Honestamente, há álcool em mim.
Álcool regando pulmão, rim, coração, útero e sua imbecil imaginação.
Há álcool em mim, sugando sua covardia quando larguei minhas pernas em bandeja a teus serviços, amor e vícios.
Álcool ungido à alegria, plenitude, feliz idade, à nossa, a luzir...

Há álcool em mim.
E dos tolos mais empobrecidos, cascudos, repulsivos e degenerados,
és o que me põe no copo, os desejos mais densos, adormecidos e vivos,
sonhados em ser:

Feliz.
 Ana Paula Morais
 
 

segunda-feira, 11 de março de 2013

Infortúnio

Hipnotizada, ando.
Como a retina cruzando teus passos,
arrastando a poeira do velho vaso.

E se acaso for, 
Não devolva os beijos, outrora dados,
O mar limpará os rabiscos rasos.

Não quebre os dedos, agora cruzados,
soando um futuro já abortado.

Livra-me padre, deste agonia,
fazendo a cruz por cima dos lábios,
molhados e vivos,
cheirando a pecado.

 Receba esta carta e leia de bom grado,
que de tristeza não morro,
se teu amor, a mim, foi derramado.

Ana Paula Morais