domingo, 9 de dezembro de 2012

O aborto do amor

           Certa ocasião merecia desprezo. Mas foi cumprimentada pelo respeito ao passado. Com dúvidas e reticências, a primeira palavra foi proferida.
- O que trazes aqui? – pergunta, trêmula, Alice.
- Ainda não sei, Alice. – Responde ao mesmo tom, Otávio.
            Alice baixa o olhar. Espera por alguma reação, já que durante anos o silêncio respondeu por si só suas tragédias.
- Como pode vir a mim, após tanto tempo, ainda sem certezas? – Indaga, Alice.
- Eu tentei... – Otávio se perde em suas próprias conclusões.
            Alice está calada. Não consegue admitir que seu corpo inteiro demonstra desejo. Ela repete a negação em mente, enquanto Otavio a olha novamente.
- Não tive o que fazer, Alice. Simplesmente as coisas tomaram rumos diferentes...
            Alice continua calada. As palavras parecem atropelar os pensamentos e ela teme por falar o inconsciente mais uma vez.
- Sinto sua falta... Mas não posso... – Diz Otavio, reticente.
- Suas palavras nunca me fizeram falta, Oto. Não é agora que irão fazer.
 [Não aceito ele me perturbar assim. Não depois de tudo que vivi, de tudo que senti. Vou embora]
- Era só isso? – Pergunta Alice um tanto ácida.
- Não, Alice... Não se ofenda, por favor. Só quero ter a certeza de que nada irá se comparar ao que vivemos. Nada.
[O que ele veio fazer aqui? Arrancar-me a realidade e plantar sonhos inalcançáveis? Não. Isso não]
            Alice tira os cotovelos do joelho e se levanta. Não há o que se pensar. As folhas mudam. Os ventos mudam. O passado também muda. Sinto um cheiro de presente e reconforto. Oto não é mais o mesmo. Tem uma aparência cansada e infeliz. Diferente de anos atrás, da alegria estampada na pele.
- Do que adianta essa certeza?
            Otávio não me ama. Pergunto-me se algum dia me amou. Se todos os sonhos se diziam reais. Das promessas frágeis, findáveis, ingênuas. Certos acontecimentos nos remetem ao desespero. Certas alegrias inflamam a tristeza escondida. Certos amores cobrem a ferida, mas não curam a dor. Oto está perdido consigo mesmo. Não consegue admitir os erros a mim tramados. A vida não aceita retalhos. Alice está abatida, visivelmente transtornada pelo amor abortado. Não consegue sequer disparar murros em Oto. Os murros seriam beijos. E os beijos, o recomeço.

  Por: Ana Paula Morais

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